sábado, 16 de janeiro de 2021

Nazarín

 


Nazarín


Ao analisar “o hálito morno” que perpassa o contexto dos livros de Milan Kundera, Carlos Fuentes em Geografia do Romance, chama de “idílio”. O vento “atrevido”, “constante” e “terrível” teria este nome: 'Idílio” Se é assim para o autor do clássico A Insustentável Leveza do Ser, qual seria o contexto – resumido em uma palavra ou em um termo – para os livros de Benito Pérez Galdós? Ou, para sermos mais humildes em nossa proposta de análise, qual seria o termo a resumir o contexto de Nazarin, um de seus romances? Esta pergunta pode não ser válida ou relevante... Mas continuemos.

Milan Kundera, autor do nosso tempo, é arcádico? Não, longe disso. Sua busca é outra. Contudo, a nostalgia é similar ao arcadismo. A nostalgia pelo simples, pelo amor puro. Nunca experimentado, portanto não é saudade, é nostalgia. E Galdós? É realista, sem sombra de dúvida. Embora seu realismo picaresco em Nazarín apele para um estado puro das coisas, um estado simples, representado pelo padre Nazarín, que se, talvez não fosse santo no começo do romance, certamente no fim, o era, porque recebe uma visita divina, provavelmente o próprio Jesus Redentor, que diz a ele, em sonho: “Alguma coisa você fez por mim.” De imediato, poderíamos pensar em Galdós como numa fantasia, num sonho, mas se isto procede, seria um sonho realista – se é que isto é possível – um sonho baseado em fatos. Por que digo isto? Porque um santo é um sinal de contradição – como o foi Jesus de Nazaré – o que o põe numa “classificação” de paradoxo. A vida de um santo ou de uma santa não possui esquemas prontos porque a santidade torna a pessoa alguém fora da roda do samsara, fora do Eneagrama e suas movimentações entre as nove pontas da estrela. Ele ou ela é redimido, suas movimentações são outras, não são previsíveis, como as nossas são, como as da maioria é.

A temática, nesse sentido, é diversa da temática da avassaladora maioria dos romances da nossa época (séculos XX e XXI). Galdós é do século XIX. Nazarín, publicado em 1895, junto com seus outros livros, põe o autor como um clássico da literatura espanhola. “O Balzac da literatura espanhola”, já disseram.

Como não pensar em Dom Quixote? Cervantes, o Machado de Assis da língua espanhola, constroi seus personagens no mesmo molde inconformista que Galdós. Ou, melhor dizendo, o padre santo de Galdós só foi possível por causa de Dom Quixote De La Mancha e todos os seus contrastes, bem como os livros que Machado escreveria com mordaz crítica social e humana. Teria existido uma “Questão Coimbrã”, conforme diz Massaud Moisés em A Literatura Portuguesa, nas letras espanholas se não tivesse Cervantes chegado antes com seu gênio moderno? Ou ainda, a Semana de Arte Moderna no Brasil teria sido adiantada, se daria anos antes do que foi, se não fosse Machado de Assis, o bruxo do Cosme Velho, a soprar ventos novos?

Nazarín, de todo modo, é um romance universal e que está além de todas as querelas rocambolescas de passagem de fase estilística ou até paradigmáticas. Atravessa os tempos incólume, como O Senhor dos Anéis ou O Nome da Rosa. Como O Estrangeiro ou Sidarta. É certo que o realismo quixotesco do padre andarilho o coloca como um personagem que, já na sua época, não era representante do zeitgeist. Embora configurado como emblemático da alma espanhola.

Tendo passagens de um gosto pícaro, dignas de Baudolino de Umberto Eco ou de Macunaíma de Mário de Andrade, o romance é uma desventura, uma patuscada, diriam alguns. Por força do seu realismo, uma figura tão autêntica e religiosa em profundidade, como Nazarín, não poderia ter outro destino do que a desgraça neste contexto de realidade.

Mas essa desgraça é real? Dizendo de outra forma, essa miséria é relevante para o contexto em si da obra? Não. Nazarín foi capaz de receber a visita de, nada mais, nada menos, do que Nosso Senhor no fim da contenda. Nazarín nunca se arrogou o direito de ser santo, nem que o chamassem de santo, preferindo a humildade e a resignação. Nazarín auxiliou centenas de pessoas doentes ao longo de suas andanças, junto com duas mulheres que atravessaram sua vida de sacerdote, inadvertidamente, antes dele se tornar caminhante, como Providência Divina, talvez... Nazarín conseguiu o feito de converter um ladrão na cadeia, em circunstâncias de mártir ou de herói – o padre foi espancado e teve sua defesa pelo ladrão. Por isto tudo, e muito mais, que o leitor pode conferir, se decidir folhear este livro, do começo ao fim, digo que o Nazarín teve sucesso. Um sucesso que o nosso mundo não reconhece. O termo, por conseguinte, a resumir o contexto do romance só pode ser este: A Graça aos olhos de Deus. Paz e luz.


Mauricio Duarte (Divyam Anuragi)



Referências bibliográficas:


A Literatura Portuguesa, Massaud Moisés, Cultrix, 33a. Edição, São Paulo, 2005.


Geografia do Romance, Carlos Fuentes, Rocco, Tradução: Carlos Nougué, Rio de Janeiro, 2007.


Nazarin, Benito Pérez Galdós, Editora José Olympio, Rio de Janeiro, 1990.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

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quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Dia do Leitor - 07 de janeiro

Neste Dia do Leitor (07 de janeiro) a LIVRARIA LITERAGONÇA vem desejar a todos os leitores e leitoras uma viagem literária transbordante e maravilhosa de leitura.

Dia do Leitor - 07 de janeiro

O Dia do Leitor foi criado em homenagem à fundação do jornal cearense "O POVO" criado em 7 de janeiro de 1928, pelo poeta e jornalista Demócrito Rocha. 




domingo, 3 de janeiro de 2021

Linha, ponto e plano

 Minha participação no Caderno Literário Pragmatha no. 90 na página 56 com o poema Linha, ponto e plano.






Linha, ponto e plano
Linha: delimitação no espaço,
conjugando pontos bem juntos,
ao redor do branco da folha,
solidão só desse tracejar.
Ponto: um marco estabelecido
para iniciar ou para terminar,
neste centro de onde converge
o tudo e o nada, desvanecendo.
Plano: criação do que está à frente
ou do que está naquele fundo,
ilusão do bidimensional,
a nos trair hoje, sempre e sempre.
Linha, ponto e plano traçados,
o artista vislumbra o infinito,
margeando uma dor pela angústia,
criando tachismos ao bel prazer...
Mauricio Duarte
São Gonçalo / RJ
Ilustração da Capa:
“Vitória do amor”, de William Bouguereau (1886)

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

As portas da percepção: Thuan

 




As portas da percepção: Thuan

 

 

“Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo pareceria para o homem tal como é: infinito.” -  William Blake

 

 

            O homem contemporâneo é  doente, de muitas formas e em muitas dimensões. É o que parece nos dizer o trabalho videográfico de Thuan. Mas há também uma realidade subjacente aos vídeos de Thuan. Pode ser chamado de verdade, Deus, Todo, qualquer coisa... Realidade acima, abaixo ou ao lado, em paralelo à nossa realidade mundana comum, que guarda, em si mesma, um caminho para o que é subversivo, o que é fora do padrão, não classificável, não programável, “a verdadeira verdade”, una, pura e nua e tão incompreensível quanto admirada ou tão rejeitada quanto inconformada. A realidade do rebelde, o caminho do rebelde. Esse caminho Thuan trilha sem medo e sem fazer concessões.

            O desejo de desvendar, de desvelar os segredos de uma sociedade podre que aliena a multidão com “o pão e o circo” é inerente ao espírito rebelde de hoje e de todos os tempos.  Mas mais do que isto, o espírito rebelde também sempre anseia ir além da realidade comum, escancarar as portas da percepção, como diriam o poeta William Blake, o escritor Aldous Huxley ou o vocalista do The Doors, Jim Morrison.

            Há cerca de 500 anos atrás, o Abade Trithemius elaborava a Estaganografia.  Método de criptografia criado por n razões, dentre elas, a magia, ou a dispersão da divulgação da prática mágica por obscurantismo. Essa magia permeia os vídeos de Thuan do começo ao fim. Desvelar e revelar são seus maiores suportes.  Mas nem tudo pode ser revelado... Ou ao menos nem tudo que não tenha sérias consequências, para quem revelou. Daí o porquê da minha citação à Estaganografia e à criptografia. Nada mais, nada menos do que Cornelius Agrippa, Paracelso e Giordano Bruno beberam na fonte do Abade Trithemius.  Numa analogia, um tanto quanto tosca, Thritemius seria o Hegel do ocultismo. Já que de Hegel vieram Marx e Bakunin, o comunismo, o socialismo e o anarquismo, por assim dizer, movimentos sociais e filosóficos que permearam o cenário mundial muito tempo depois de Hegel.  Thuan tem uma metralhadora giratória, mas que só atira para os lados que ele quer. Não significa que o criador videográfico esteja passando a mão na cabeça de alguns dos poderosos de hoje ou das situações hodiernas.  Não se trata disso. Antes, Thuan prepara o terreno para largar a metralhadora e usar suas granadas de mão.  “Santa granada de mão”, como diria o grupo comediante inglês Monty Python...  Seja por rajadas de metralhadora, seja por verdadeiras bombas, o roteiro é sempre contundente. Senão vejamos:

            Em “Excêntrico como Método”, o criador cineasta nos mostra uma tela em PB, com uma grande avenida de uma metrópole qualquer, na qual passam carros, ônibus, táxis, e trafegam também transeuntes quando o sinal fecha. Misteriosamente uma letra B gigante em branco seguida por uma mão em preto como que “guardando na bolsa” aquela avenida e, ainda, um Y estilizado no final. A razão desse mistério só compreendemos no final. Embora antes, podemos ler claramente a palavra “BUY” como ordem absoluta da sociedade de consumo. O mistério (uma gag visual) só é completo, no final, conforme dissemos, quando desaparece a mão (que fazia as vezes do U), e o Y, e fica só o B gigante em branco seguido agora pelo nome do autor, Thuan, formando assim, o “By Thuan”, por Thuan, assinatura inconfundível do artista.

            Em “O Tudo no Dia”, Thuan em conjunto com Luiz Felipe Santana, mostra um espelho enviesado no que parece ser um camarim, no qual se aproxima o ator ou a atriz num robe “de pele de onça”, senta-se em frente ao espelho e começa a ler um texto, como que ensaiando seu papel. O texto resume que só existe um dia, um único dia, e não centenas de milhares de dias, conforme comumente pensamos. E ainda, que só no sonho vivemos, só o sonho pode nos libertar. O “desejo sonhar” nesse caso é “desejo viver”, em tradução livre do que pretende o autor. Só o sonho salva, o resto é condenação, a morte, o fim. Após a leitura do texto, o ator bebe a taça de vinho (provavelmente vinho) posicionada à frente do espelho, juntamente com uma garrafa, desfocados (em segundo plano ou em primeiro plano? Depende do que interpretamos porque o ator só é visto no seu reflexo do espelho) levanta-se e sai definitivamente deixando só o reflexo do espelho focado. No final, numa tela preta, se vê em letras amarelas, em formato de “manifesto” (ou uma paródia do “manifesto artístico”?) o seguinte dizer: “Que se substitua o estudo da História pelo estudo do dia”. “Pois só há um dia.” “Os mistérios da humanidade residem em cada detalhe do dia”.

            Em “Sobre a Observação”, o nosso artista na direção (junto com Vitor Kruter) e roteiro própirio, nos defronta com o passar vertiginoso do metrô em primeiro plano chapado, cortando depois para o trafegar de carros se dirigindo para um túnel ou atravessando abaixo de um viaduto. A água do mar, os peixes no aquário (ou os homens no aquário da grande cidade que os peixes veem do aquário?). Um presidente azulado, de faixa presidencial, com suas malas de viagem, parado numa calçada de cidade grande. Tudo isto com uma música de fundo instigante, uma espécie de sinfonia, música instrumental... Um transeunte esperando o trem, quase não o percebemos... Fecha para a tela preta. Inicia uma conversa muito louca sem música (a conversa do Chapeleiro Louco de Alice no País das Maravilhas?) com dois homens, sentados numa mesa, pedindo que venha o garçom. A garçonete vem e serve (água ou aguardente?) num único copo já posicionado na mesa. Fecha para uma tela preta novamente. A música instrumental volta. Vemos o entardecer, no céu dos arranha-céus...Os urubus, as nuvens, um insondável mistério que paira no ar: para que vivemos, o que espera de nós, a existência? O que esperamos dela? Carros trafegam, se dirigindo para abaixo do viaduto ou para dentro do túnel. O trem que chega na estação... Transeuntes a caminhar... Tela preta. Volta a cena com os dois homens sentados à mesa. Dessa vez reclinados e dormindo, tirando um cochilo. A garçonete vem, acorda os dois e serve mais uma dose no copo que já estava posicionado à mesa. A música instrumental dessa vez invade “a cena do Chapeleiro Louco”. A cena vai para um ângulo superior, com os dois homens na mesa vistos de cima. Corta para uma fenda num cubo azul em primeiro plano. Uma criança menina observa a fenda do cubo azul, com um dos olhos, sugerindo que ela viu tudo que se passou no vídeo inteiro dali...

            Thuan é mestre e sabe como ninguém descascar a cebola da realidade. Seria isto magia? Pode ser... Mas Thuan é cristão e o cristianismo é subversivo a seu modo.  Esta mágica é mais comum e natural do que muitos de nós imaginam.  Como já sabia o Abade Trithemius. Afinal, a magia do rebelde está bem ali, espreitando na próxima esquina de uma cidade grande qualquer...

 

Mauricio Duarte (Divyam Anuragi)